Mário Cabrita Gil

Mário Cabrita Gil

INTER SOMNIA INSOMNIA

2014-Inkjet printing on Ultrachrome K3 Epson UltraSmooth fineart paper.

Frame box.

2014 - INTER SOMNIA INSOMNIA

 

Sobre o retrato do artista na eminência de um evento…

 

Inter Somnia Insomnia é o título que Mário Cabrita Gil deu a este conjunto de fotografias a cores, em grande formato, que são auto-retratos do artista exibindo toda a parafernália de aparelhos e eléctrodos adesivos necessários para a realização de um estudo poligráfico do sono, estudo onde se procuram detectar anomalias que ocorrem durante o sono.

O artista tem uma longa carreira ligada ao cinema e à fotografia, tendo começado como operador de câmara e director de fotografia em 1970 e tendo iniciado a sua longa lista de exposições fotográficas em 1979. A par da sua carreira profissional nestas áreas, nunca deixou de, paralelamente, expor a sua obra fotográfica, onde revelou as suas preocupações artísticas, num trajecto diverso mas coerente. No seu espectro de interesses destaca-se o retrato, como em Idade da Prata (1986), Imagem das Palavras (1991), 30 retratos de mulheres (1998) ou em Entardecer em Alfama (2000), o corpo, como em Contacto (1997) ou Discursos (1999)  e o corpo transfigurado pelas novas técnicas imagiológicas, como em in sinu matris (1994) ou em do espaço e do tempo (2009). 

O retrato, e em particular o rosto, é um objecto clássico dos fotógrafos, porque o rosto é portador duma qualidade paradoxal: por um lado é a afirmação da singularidade de cada indivíduo, transporta nas suas rugas, nas suas cicatrizes, no relevo das suas concavidades e saliências, a memória do tempo e as marcas do percurso vital de cada pessoa, dando, através da transparência dos olhos a ilusão de podermos espreitar a alma e alcandorando-se a uma dimensão sagrada através da sua capacidade de, diante do espelho, poder prefigurar a morte, mas, por outro lado, o rosto é opaco, enganador, ambíguo, podendo induzir uma realidade e o seu contrário, ocultando a verdade única, misteriosa e impenetrável que cada pessoa transporta dentro de si. 

Mais cedo ou mais tarde o auto-retrato acontece em muitos artistas, alguns dizem que por motivação narcísica, eu penso que muitas vezes acontece porque o nosso rosto é o que está mais à mão, aberto à tortura sem termos que pedir licença, funcionando como uma ferramenta para transmitir algo que nos acudiu no escrutínio sensível que os artistas mantêm, em permanência, da realidade que nos cerca. Às vezes demoramos mais na observação do nosso rosto e temos mais tempo para nos espantarmos com a estranheza de uma luz, duma expressão ou de uma encenação temporária. Nestas alturas, a superfície (surface em francês) do nosso rosto transforma-se numa película reveladora que impressiona a nossa sensibilidade e desperta a pulsão criativa.

Creio que terá sido isto que Mário Cabrita Gil descobriu quando se olhou ao espelho, depois de lhe terem sido instalados todos os mecanismos de monitorização que o exame complementar implica. A invocação de um homem bomba na eminência de se fazer explodir, o fantasma de estar ligado à máquina, o que normalmente não augura nada de bom, a semelhança com instrumentos de tortura, a visão de um Deus Ex-Machina, expressão da superação da história e da mortalidade, propagada pelos ciberfilósofos ciberfuturólogos, a armadura para descer ao abismo dos nossos pesadelos, a fragilidade e caducidade da nossa matéria, a angústia da descoberta de um rombo na fantástica complexidade do nosso organismo vivo, tudo isto ou outra coisa qualquer pode ter despertado o fotógrafo para pegar na máquina e fazer-se retratar naquele momento.

Para a eficácia desta obra contribui a escala e alguma dimensão pictórica que resulta do tratamento digital do fundo, onde se multiplicam uma miríada de micro-retratos, numa estratégia que o artista já tinha usado em obras anteriores, como em in sinu matris. 

Se a era digital veio acentuar a desmaterialização da obra de arte a fotografia digital em particular, veio expandir a possibilidade de manipulação da realidade até aos limites da nossa imaginação, apagando, desintegrando, distorcendo, multiplicando, simulando, inserindo, criando formas nunca vistas ou criando novas realidades a partir de pixels abstractos, em qualquer dos casos ampliando exponencialmente os recursos expressivos dos artistas na criação de novas ficções. Citando Azis e Cucher: "Cada imagem, cada representação, é agora uma fraude potencial e a simulação é a única verdade em que podemos confiar"

Se a fotografia é a interface entre o sujeito e o mundo que o rodeia, como refere Regis Durand, a imagem fotográfica processada digitalmente é a interface entre o meio analógico e o digital, resultando num suporte tão radicalmente diferente que Timothy Druckey lhe chama imagem pós-fotográfica.

Tudo é justificável em função da intenção última, que é universal à condição de artista: fazer-nos ver para lá da pele visível da realidade, fazer-nos compreender, através dos sentidos, algo que está para além do dizível, atingir-nos no punctum de que falava Roland Barthes e, dessa maneira, engrandecer um pouco a nossa capacidade de ver e entender o que está à nossa volta ou a nossa própria natureza. 

 

Luís Campos

Lisboa, 1 de Outubro de 2014

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