Mário Cabrita Gil

Mário Cabrita Gil

DUSK IN ALFAMA 

 Exhibition and book in 2000 produced by Photographic Archive of the City council of Lisbon.

Photos by Mário Cabrita Gil

 

Text Maria Belo

O entardecer em Alfama

 

Elas aceitaram sem reservas a nossa proposta.

Conheciam-nos de há anos e tinham já há muito a sua opinião sobre nós.

Em conversas individuais, falaram das suas vidas e da do bairro, sem papas na língua.

Com o orgulho de velhos viajantes que relembram memórias.

Contaram histórias e épocas conhecendo bem o valor das pérolas que nos mostravam.

Depois, punham um dos seus melhores vestidos. Penteavam-se e arranjavam-se.

E iam sentar-se no estúdio de fotografia, direitas, olhando a máquina sem receio. Inteiras nesse olhar.

 

Mário Cabrita Gil

 

Maria Belo

 

“Se pudesse contar a história com palavras, não precisava de trazer comigo uma máquina fotográfica”. Não sei porquê, nem em que ocasião Lewis Hine disse isto. Mas se fosse possível contar Alfama só com palavras, Mário Cabrita Gil e eu própria não nos teríamos metido nesta aventura. Não se trata das imagens que encontramos nos quiosques e correm mundo, nem daquelas, mais cuidadas, dos livros sobre os bairros de Lisboa. Se as palavras, as das falas das mulheres de Alfama podem pôr em cena o que foi e o que é este bairro, só os olhares que a máquina de Mário Cabrita Gil captou e que aqui se oferecem sem disfarces, nos dizem a verdade da vida do bairro e das mudanças brutais que tiveram lugar nos últimos quinze anos.

Transmitindo um imaginário tradicionalmente ligado ao pitoresco, ao fado, às marchas e aos Santos Populares, Alfama reserva a sua alma para quem nela habita e partilha o seu quotidiano. É necessário viver no bairro para perceber como Alfama foi o coração de Lisboa.

O seu urbanismo define-a: ao contrário de outros bairros tradicionais de Lisboa, por Alfama não se passa, só se entra ou se sai. E assim como as suas virtudes pegam como as sardinheiras nas varandas, as suas maleitas encontram ali uma estufa propícia à contaminação.

Sólido, resistente ao terramoto de 1755, labirinto de ruelas, travessas, escadinhas e becos, ela é como uma aldeia isolada na serra a cinco minutos a pé do Terreiro do Paço e dos seus senhores. Viveiro de cristãos, mouros e judeus, aprendeu ao longo dos séculos a tolerância e a solidariedade. Mas como um velho casal: sem a menor privacidade entre habitantes, sem poupar um comentário, uma galhofa, uma zanga, uma troça, um gesto de ternura. Alimentando-se de recordações.

Com as diferenças de idade, de sexo e sociais muito bem definidas (em Alfama cotejam ainda, mesmo se sem o esplendor e o fascínio mútuo de há umas dezenas de anos, ricos e pobres, palácios e casebres, senhoras e criadas ou lavadeiras) a questão das trocas, das funções, da participação, dos lugares tradicionais de cada um não levantava qualquer dúvida. Todos eram indispensáveis.

Para as crianças do bairro, crescer era a liberdade dos passeios para os que já andavam, a da rua para os que corriam. Para todos era sorver avidamente o movimento e as vozes, a vida dos adultos. Era o descobrir e inventar ritos de passagem ou de acesso entre os diferentes grupos. Era olhar os do outro sexo a partir da identificação com o grupo do seu sexo. Meninas com meninas, rapazes com rapazes, olhares fixos nos adultos aprendiam a conhecer-se a si e entre si pela diferença com os do outro lado. Os rapazes iniciando-se às escapadelas do bairro. As raparigas descobrindo nos gestos e nas falas das mulheres uma feminilidade viril e afirmativa.

Mas comecemos pela sorte dos mais pequenos. Criados em casas minúsculas, não sofriam disso: as ruas eram sem fim na forma e na diversidade e iniciavam à aventura. As mães não tinham porquê se preocupar: qualquer adulto deitava olho e mão à travessura ou risco maior. Os meninos ricos, nos seus salões, invejavam pela janela a liberdade dos pobres.

Um garoto de cinco anos  que a mãe, nova em Alfama, deixara ao cuidado de uma vizinha, brincava num largo, a uns metros da casa. A mãe passou, a caminho da grande cidade, e o miúdo pediu-lhe um pacote de batatas fritas. A mãe entrou com ele numa tasca antes de ir à vida. Ao entrar o garoto disse: “Mãe, um pacote grande” e um homem que, encostado à ombreira da loja olhava a cena, comentou aliviado: “ah! É a mãe!” A mulher percebeu como o seu filho estava bem guardado na rua. Sem impedir que os adultos vaguem aos seus afazeres ou interesses, as crianças não estavam no entanto sozinhas ou abandonadas. Eram apenas livres de crescer como soubessem. A intervenção só surgia quando era mesmo necessária.

Até aos 4,5 anos, brincavam todos juntos. Depois vários  grupos de idades dividiam-se entre rapazes e raparigas. Aprendia-se a diferença e a divisão sexual, a lei do mais forte, as regras do grupo e a força da comunidade.

Os grupos de homens, os grupos de mulheres e os de crianças eram assim fonte de poder e de protecção contra o poder dos outros. O autoritarismo individual era caseiro, portas adentro, mas sabido pela comunidade. Assim cada qual estava em casa o menor tempo possível. De preferência sozinho. Ou então para dormir ou para comer no Inverno.

Tolerantes e não intervencionistas mas conservadores, em Alfama tudo estava controlado. “O Castelo é mais liberal” comenta uma das mulheres deste livro. “Por isso lá não é tão mau como aqui, questão de droga e de roubo. Mas aqui as pessoas eram mais amigas.”

As raparigas ambicionavam sair. Sonhavam com profissões. Mas de lide da casa em lavadouros, de pequenos trabalhos desde os sete, dez anos, em domesticidades em casa de outrem, recomeçavam as vidas das mães e um destino precocemente subordinado a um homem. Entretanto tinham aprendido o prazer entre elas. Entre a soleira, as lojas e o lavadouro, as conversas, as risadas, as zangas iam e vinham e preenchiam o quotidiano.

Assim para elas, a vida era solta, colectiva embora. Elas sustinham e faziam funcionar as ruas, as lojas, as soleiras, as janelas, os lavadouros com uma brejeirice e comadrio constantes. Eram elas quem faziam as regras colectivas, quem, qual minarete islâmico, pontuavam as horas com os gritos de chamada dos filhos e dos homens para as refeições, com as instruções às filhas, com as graças, as indignações, as zangas ou os lamentos gritados de rua a rua, janela a janela. Numa fala própria, livre, inventiva, cheia, gritada, cortando constantemente a calma do bairro onde não entram os ruídos da cidade exterior, incapazes de passar para dentro do labirinto arquitectónico.

Agressivas ou doces ou as duas coisas simultaneamente, que a isso se presta a linguagem livre que utilizam; desesperadas ou divertidas (duas vendedeiras na sua banca de peixe, gritavam um dia, em tom de pregão, entre a gargalhada do bairro, para o grupo de turistas que, no largo S. Miguel, seguia a guia apontando as janelas: o grito era um desafio às turistas e à sua feminidade ausente); as mulheres de Alfama não falavam entre elas, senão no lavadouro ou em casa. Antes gritavam ao bairro o que tinham a dizer, como os tambores africanos.

Havia ainda outras “telefonias”. As lavadeiras e criadas dos ricos de Alfama levavam para casa das patroas as histórias do bairro, segredadas nas cozinhas enormes ou entre alcatifas e cortinados. Em troca traziam para o bairro as novidades dos amos: as riquezas, os luxos, as “modernices”, as festas e os convidados, mas também as ruínas repentinas, os lençóis remendados, as zangas familiares, o tédio de alguns, a doença de outros, os adultérios escondidos.

O lugar privilegiado para estender estas histórias era o lavadouro, melhor do que as lojas ou as soleiras. Aí a roupa é indiscreta e indica a vida de quem, usando-a, a sujou, proporcionando todo o tipo de conversas e galhofas sobre o quotidiano. As miúdas, no lavadouro, bebiam as palavras das mulheres e faziam-se mulheres.

A iniciação dos rapazes era outra. Começava com o “tostãosinho p’ó Sant’António” e ia até ao primeiro cigarro, as primeiras competições viris, a primeira saída fora dos limites do bairro, o pequeno primeiro furto, o primeiro beijo. Tudo passos colectivos entre colegas de carteira na escola da vida. Mas em seguida, na lógica do bairro, vinha a integração e a constituição de família. Já então, alguns pegavam nela e desandavam à procura de outro emprego que não dentro do bairro nem na doca, doutra largueza na casa, doutro modo de vida. Mas Alfama mantinha-se a Alfama da infância com a sua magia.

No fundo o bairro era clássico e conservador. Uma vida de família com as suas circunstâncias. Mas a comunidade era mais forte. Os seus alicerces eram e ainda são as suas mulheres. Eram elas que faziam a ligação entre classes. Entre patroas e criadas ou lavadeiras, tecia-se o enredo das famílias e do bairro. Atentas, todo o quotidiano era assumido pelas suas falas, assim dando sentido ao dia-a-dia e segregando os laços entre todos: laços que prendiam os habitantes entre si e os atavam ao bairro, mas que também tornavam a vida mais alegre e solidária.

Eram elas, e são ainda elas, que faziam da vida colectiva do bairro um festim diário de sensualidade difusa, quente, gritada ou sussurrada. Uma fala saída do corpo e do prazer enchia os dias.

Hoje são só recordações que elas por vezes ainda encenam. Alfama tem sido nestes últimos anos uma espécie de Casal Ventoso envergonhado – “Eles vêm de fora para aqui, não tratam mal a gente, vêm de outros lados, vêm aqui comprar droga, é uma coisa má aqui nesta rua...” -. As mulheres calam-se, as portas permanecem fechadas, há mortes de “over-dose” e de sida. A alegria tornou-se mais difícil e esconde o desengano que há vinte anos ninguém adivinhava.

Ao aceder a serem fotografadas por Mário Cabrita Gil, as mulheres de Alfama aceitaram mostrar a alma, através os corpos, as posturas, os rostos. Mas é sobretudo o olhar, que de foto em foto nos diz como vivem o que vivem.

Dignas, umas senhoras, sem ter de que se envergonhar; mas uma tristeza profunda, o revés que a droga introduziu desfazendo um estilo de vida, despojando-as dos poucos bens de valor, fechando portas e soleiras, instigando à desconfiança, roubando a autoridade colectiva, levando ao “farniente” ou à prisão grande parte da juventude.

Os turistas continuam a chegar todos os dias. Olham as casas, as janelas, as sardinheiras e as roupas penduradas, tudo muito típico ainda. Mas tal como dantes não reconheciam o gozo que antes corria pelas ruas, desconhecido nos seus países desenvolvidos, também hoje não sabem ler o silêncio barulhento que os acolhe quando labiritam por lá.

Também os santos populares continuam a atrair o seu público. Mas como podem os jovens lisboetas adivinhar que o bairro se morre e que os lobbies imobiliários espreitam o seu último suspiro. Daqui a trinta anos, recuperado, renovado, provavelmente muito “in”, quem se lembrará que ali no bairro de Alfama viveram homens e mulheres, solidários, sofridos e prazeirosos, que acolhiam a diferença.  

 

 Maria Belo

 

   

Não sou uma santa, mas sou condoída.

A vida sendo calma, é divertida.

Sou uma pessoa muito comovente, com a minha vida, com a vida dos outros. O meu mal é esse.

Não trabalho, sou vendedeira.

Eu não sou de Alfama, moro aqui há 54 anos.

Eu tenho a impressão, para mim, que naquele tempo havia mais amizade uns aos outros, não sei se seria por as pessoas pouco mais ou menos terem o mesmo nível. Havia uma pessoa ou outra que tinha uma vida mais arranjada, mas não era assim tanto. Havia as discussões, havia as zaragatas, mas se eu viesse para a minha casa e dissesse Ai! aqui dentro, a conversa e a discussão já tudo tinha passado e tudo vinha aqui ver o que tinha acontecido e o que era que eu precisava.

A minha mãe ia trabalhar, eu ficava em casa e ia para a escola e ao meio-dia ia buscar a sopinha do Sidónio. (...) Ainda durante muito ano a gente ia buscar essa sopa, davam-nos uma panela e pão... Era uma vida triste, mas não sei se era por sermos novos, sermos crianças, não dávamos por isso e vivíamos com mais alegria.

Eu tive um namoro, a minha mãe e o meu pai só me davam uma hora para namorar e era aqui à porta, onde estava toda a gente a brincar, havia uma taberna ali em frente, estava sempre cheia de homens, eu punha aqui um banco, a namorar... Era uma prisão maior, não era que naquele tempo não se fizesse o que se faz hoje, mas era de outra maneira.

Antigamente, quando vim para aqui, eram bailes e música em todo o lado, era assim mais divertido, agora isto está mais em silêncio, já é só o Santo António e nada mais.

Dantes a gente fazia uns bailes, tudo isto era enfeitado por nós mesmos, aquele palácio enchia-se ali de gente, a gente enfeitava-lhes as janelas. Agora é só esta coisa dos comes e bebes só para dar dinheiro, eu praticamente não saio daqui, mas diz-se que pedem oitenta, cem mil reis por cada sardinha. Quer dizer, hoje tenho uma cama para me deitar , naquele tempo a gente não tinha, dormia no chão em cima de uns sacos, às vezes punha um saquinho por cima e assim vivíamos. Mas alegres.(...) Nos santos populares, uns assavam sardinhas às portas das suas casas, os vizinhos juntavam-se, os passantes também comiam as sardinhas que lhes ofereciam.

Isto era assim, tudo aberto (...) isso de ladrões também havia, sempre houve, mas a gente podia deixar as nossas portas abertas e deixar o porta-moedas em cima da mesa que eles não mexiam, à gente do sítio não.

As minhas filhas não gostam de Alfama. Nascidas e criadas aqui, para cá vir é um caso sério. Sou eu que lá vou. Vem buscar-me e trazer. A mais nova tem medo. Sabe que há estas coisas lá fora, que dizem que na Alfama há droga, que na Alfama fazem, que na Alfama acontece, têm ouvido tanta coisa por lá que têm um medo de virem aqui que a senhora nem imagina.

As pessoas gostam umas das outras, ainda acontece. Mas agora, a maioria é gente de fora. Nas noites de verão, as casas são quentes, lavamos a louça, fazemos a vida e vamos para a rua, ficamos ali à porta conversando umas com as outras. Mas as que são de fora ficam todas aborrecidas que a gente está a fazer barulho na rua, não se pode dormir. Eu, às vezes, digo assim; “Eh pá, mas a gente também trabalhava, sempre se trabalhou”. Tivemos uma vida desgraçada, às vezes aqui estavam as raparigas de um lado e do outro, tudo a coser sacos até às duas, três horas da manhâ, c/ fados e guitarradas, um tocava guitarra, outro viola, e dormia-se na rua, tudo à vontade, era familiar, não era?

Muitas mulheres vão lavar a roupa no lavadouro. Quer dizer, eu não tenho possibilidade de ter uma máquina e mesmo que tivesse não queria que eu também gosto de ir lavar no tanque, fica a roupa mais bem lavada. Ponho-a de molho, um bocado com Omo e depois lavo-a ali com água a correr, com sabãozinho, fica ali a roupa muito bonita. Vão mais mulheres, vai muita mulher lá lavar roupa que ainda nem toda a gente pode ter uma máquina. No Beco das Cruzes, da Sociedade da União, andam lá a pôr máquinas de um lado, tanque no outro, mas eu já disse que não quero máquina, enquanto puder, tenho já 62 anos, quero lavar no tanque que gosto mais. As máquinas fazem muito barulho, a gente não pode conversar.

Tenho passado muito, fome, fartura, tudo mais um bocadinho, maus tratos. O meu marido quando estava em casa era muito mau para mim, quer dizer, tratava-me mal e batia-me, era assim antigamente, agora já não fazem essas coisas. De vez em quando sempre há um espectáculo, os maridos ainda molham a sopa.

O meu marido arranjou lá uma mulher no Intendente, juntou-se com ela e largou a casa. Ele começou a faltar a estar em casa, eu comecei a compreender que a vida não era assim grande coisa, desconfiei, fui ter com uma pessoa e disseram-me onde é que ela morava. Fui ter com ela, dei-lhe pancada nela e fomos para a esquadra, mas eu depois é que ganhei porque eu é que vencia. Quer dizer, não venci que ele depois é que foi morar mesmo para casa dela e lá está a viver até à data, já há catorze anos. Pronto, eu deixei-me disso e de fazer, como hei-de dizer, desacatos nem nada, não valia a pena.

Os meus pais não nos deixavam andar assim à toa. As crianças hoje ainda brincam na rua, mas pouco. Há mais escola, isso é bom, quando começar as férias vêm para a rua, mas mesmo assim é diferente, as pessoas vão de férias, levam os filhos. Agora ainda brincam, mas é preciso vigiá-los, há muitos carros, roubos, muita gente, raptos... As pessoas dizem “Ai Alfama, onde está Alfama?”

 (Dizeres recolhidos entre 1993 e 1994 por Fátima Carvalho, Filipa Pereira Coutinho e Maria Belo)

 

    Maria Belo - texto

    Mário Cabrita Gil - fotografias  

 

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